Sexta-feira, 11 de Junho de 2021

O amanhecer não tem hora marcada

 

As sirenes em correria das ambulâncias e carros de policia ecoavam no horizonte próximo, em avanços, recuos e mudanças de direção bruscas, serpenteando entre as ruas, buzinadelas de "chega para lá", roteiros percetíveis pelas variações do eco do seu grito de alerta, e João, filho da Dona Fátima, estava no quarto deitado, longe desse bulício, ainda afogado no absurdo do absinto, adormecido mas sem conseguir dormir, numa manhã que acordava sem raios de sol, porque o céu nasceu nublado, com um leve filtro de cinzento claro a cobrir toda a paisagem, sem vento, nem frio.

 

Maria João, separada do mundo por tijolos cimento e azulejos, perdia mais do que os seus habituais 15 minutos - os mínimos olímpicos - a aplicar uma maquilhagem convincente, e com isso, atropelava-se numa correria contra o relógio, entre o quarto e a casa de banho, para num último instante, em 2 atos, enfiar-se dentro de um vestido, e como por magia, ficar pronta, com apenas míseros 7 minutos de atraso (com sorte não apanharia trânsito naquele maldito semáforo),

 

O Sr. António já passeava na rua e passava os rotineiros olhares românticos e orgulhosos sobre o seu carro semi-novo, foram décadas a levantar-se às 6h30, não seria a reforma a mudar os velhos hábitos, fazia desde cedo a ronda diária à rua, depois de ter ido comprar o pão fresco, o jornal e o maço de tabaco deixou de comprar na papelaria faz perto de 5 anos, substituiu o vicio por raspadinhas, o médico diz que foi o melhor que ele fez, a mulher e os seus cortinados da sala corroboram (as noticias passou a ver no telemóvel e no tablet). O Sr. António sabia qual funcionamento diário de todos os vizinhos do prédio, as movimentações do "quem e a que horas", sabia também a trajetória exata do Sol durante todos os meses e estações do ano, e quais os melhores lugares de estacionamento da rua para proteger a pintura do carro dos maliciosos raios UV.

 

Um miúdo fazia birra em plena calçada, e demonstrava a plenos pulmões que não queria ir para a escola, "que isso não podia ser todos os dias", e o pai respirava fundo e tentava explicar-lhe, mais uma vez, que os meninos vão para a escola e ele tinha de ir trabalhar, que não havia alternativa, que era assim, e depois suspirava, do fundo da alma, com o peso dos problemas dos adultos em cima dos ombros, e por não querer, igualmente, ir trabalhar.

 

A meio da manhã, o Sol fintou as previsões meteorológicas e já beijava a face de todos, por entre janelas e vidraças, incluindo o carro do Sr. António.

 

(João dormia profundamente)

 


Mr Anger às 12:25
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