Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Amor vândalo

 

Estávamos em 1972, já cheirava a Abril, mas ainda faltava, era provavelmente Janeiro. Camuflado no escuro da noite,  de trincha e lata de tinta vermelha na mão, alguém escreveu por entre sombras de candeeiros foscos :


amo-te

 

Apenas isso, simples... deliciosamente simples, na pedra mármore da parede do Nº12 de um prédio da cidade.
 

No bairro nunca se soube quem tinha sido o autor de tal vandalismo, ou para quem, nem os rumores coscuvilheiros  arranjaram um culpado. O senhorio não vivia perto, só viu tal obra passado alguns meses, e pouco se importou, tinha  mais interesse em exigir a renda atrasada ao 2º Esq. O arrendatário desse rés-do-chão também não deu uso ao  esfregão, pensou ele que com o tempo se apagaria...

 

Enganou-se, ou quis enganar-se - por preguiça - e o manifesto de amor desconhecido, feito em pouco mais de 2 minutos ali se manteve, aguentando-se ao sabor dos anos, do  sol e da chuva, aos muitos cartazes sobrepostos e das muitas costas refasteladas contra ela em 2 dedos de conversa - ignorando a sua presença. Nem as obras do prédio e uma pintura atabalhoada já no Sec. XXI a fizeram desaparecer.

 

Que significado terá tido aquela mensagem, aquele gesto ? E na vida de quem ? Terá alguma vez sido lida pela pessoa a quem se dirigia ? E será que o amor ali apregoado ainda hoje perdura, ou terá perecido mais cedo que as palavras ? É nessa indefinição, nesse mistério que se encontra a sua beleza…

 

O vermelho sangue empalidou-se, está agora completamente  absorvido pelo espaço, apenas visível aos olhos de quem quer ver, e só quem consegue ver consegue sentir, e só quem sente, sabe o quanto vale um simples e genuíno gesto de amor... mesmo que seja vândalo…

 

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Mr Anger às 14:00
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33 comentários:
De meldevespas a 19 de Dezembro de 2008 às 10:12
Ja que recebi o mail, resolvi vir espreitar e ainda bem que vim.
Dei umas quantas voltas por aqui, e gostei do que vi, melhr....gostei do que li.
Gosto da sua forma pode-se dizer, crua de escrever.
Vou voltar, se nao se importar.
Boas Festas directamente do Alto Alentejo


De Mr Anger a 21 de Dezembro de 2008 às 22:54
Caro amigo,

Volte sempre, mas volte, olhe que prometer e não cumprir é vergonhosamente feio...

E viva o Alentejo

Boas festas

Mr Anger


De fragmentosdavida a 19 de Dezembro de 2008 às 11:40
Maravilhoso, magnifico... Adorei seus escritos. Vc tem um grande talento.



De ainsustentavellevezadoser a 19 de Dezembro de 2008 às 14:25
um gesto simples é o que mais nos marca....
enjoy,
i.

p.s- aproveito para lhe desejar um feliz natal. parabéns pelo blog


De executivo_chanfrado a 19 de Dezembro de 2008 às 18:26
Belo blog. Obrigado pelo convite.


De Closet a 20 de Dezembro de 2008 às 16:05
As coisas são sempre do tamanho que nós as vemos e as sentimos, por isso passam despercebidas para alguns e têm um enorme significado para outros...adorei o texto e a sensibilidade do gesto vândalo. Foste tu que o pintaste?


De Mr Anger a 21 de Dezembro de 2008 às 22:57
Caro(a) amigo(a)

Não fui eu que pintei... de certa forma, e o vandalismo fica-me mal.

Boas festas

Mr Anger


De a 20 de Dezembro de 2008 às 22:03
Olá
,
Em 1972, era considerado muito subversivo escrever, numa parede, a palavra amo-te. Depois de 1975, escreviam-se as maiores obscenidades , mas da palavra amo-te é que o mundo precisa sempre!

Bom Natal,
Daniel


De Anónimo a 21 de Dezembro de 2008 às 06:45
Até um vandalo tem o seu amor..

..e tu Mr Anger , tens!?

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Até um vandalo tem o seu amor.. <BR><BR>..e tu Mr Anger , tens!? <BR><BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Cump</A>


De Mr Anger a 21 de Dezembro de 2008 às 22:59
Caro(a) amigo(a)

Eu não vivo sem amor... nem quero tentar.

Boas festas

Mr Anger


De Ana a 21 de Dezembro de 2008 às 23:42
"e só quem consegue ver consegue sentir, e só quem sente, sabe o quanto vale um simples e genuíno gesto de amor... mesmo que seja vândalo…"

Sublime, mas excelente! ;)


De teresworld a 22 de Dezembro de 2008 às 10:10
Muitos foram os rabiscos que eu li sobre o amor, politica, racismo...
E trago na memória uma foto de criança, apontando o dedo, num qualquer mural abandonado, alguns gritos de protesto de injustiça social e talvez ao lado um "amor" abandonado...
Há sempre alguém que nos lê...

Teres


De Ventania a 23 de Dezembro de 2008 às 22:32
Amor com vermelho-paixão.Tenho para mim que nunca se apagam, os amores. Mudam de cor, de significado até, mas uma vez liberto às suas verdades, um amor nunca deixa de sê-lo (tempos verbais à parte).
Gostava de morar num nº 12...


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