Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

O mar enrolado em ti

 

Um dia subi contigo a um miradouro escondido, pequeno parque de estacionamento secreto, varanda natural sobre a praia, aí trocámos de corpos, diluímo-nos um no outro, amassados, ofegantes, completos. Nesse dia, sem me aperceber, guardei para a eternidade o teu sabor, o teu toque suave de mãos pequenas e delicadas, o teu perfume, a sensação da leveza do teu corpo no meu quadril. Vivi o sonho, trinquei o desejo, agarrei-me a ti até ao último vestígio na colher, lambida até ao metal, até ao último travo de cigarro, fumado até ao vazio, até à última gota no copo, bebida de um só trago, até cair, redondo, apático, numa overdose de ti.

 

Estaremos sempre por ali, num lugar secreto entre a maré cheia e a maré vaza

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Mr Anger às 01:28
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Domingo, 13 de Dezembro de 2015

Folhas arrancadas de um livro

 

Que mais sentiria o coração, na hora da arritmia sentimental, depois do alvoroço e das lágrimas perdidas na calçada, diluídas no lixo calcado de tantas vidas alheias, que diria eu, em próximos jantares de família e amigos, que desabafos ou palavras teria?

 

Haveriam certamente explicações para dar, frases feitas para ouvir, copos cheios para esvaziar, mas para que lado iria eu dormir, sonâmbulo sem-abrigo, e em que colchão me iria deitar?

 

Fariam sentido ou serviriam de amparo, as bengalas substitutas ao teu ombro? Vingaria-me nos lugares comuns, manifestações corriqueiras e previsiveis de um choradinho à laia de um "Gloria Gaynor" másculo ou escolheria as espirais silenciosas e apáticas dos processos auto-destrutivos?

 

Tudo faria sentido, mas nada significaria o mesmo, sem ti.

 

(Nunca significou)

 


Mr Anger às 18:45
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2015

O amor habitual

 

Foi num estado de completo desespero que Pedro saiu e fechou a porta atrás de si, convicto que seria a última vez a fazê-lo, apoiando-se na teoria apressada da inevitabilidade das coisas. Quem não tivesse o hábito humano de observar faces – e assim reparar que tinha estado a chorar - facilmente apercebia-se, pela sinalética corporal agitada e confusa de quem desce os lances de escadas a galope - de 2 em 2 degraus desde o 5º andar, e cara em forma de seta - que algo não estava bem, e que  nesse preciso momento não existia mais nada atrás de si.

 

Ainda esperou que uma voz o tentasse deter, um: “Pedro espera, por favor, volta para dentro”, que ele obviamente retorquiria com o egocentrismo aliviado de um: “Não Joana, falamos depois”, era esse a táctica de um jogo não planeado, o habitual, mas desta vez nada existiu ao sair disparado pela porta, nem ao descer as escadas, ao fechar a porta do prédio, no trajecto que fez até ao carro, do carro para outro lado, no passar sequencial e vagaroso dos quilómetros, ao meter a chave noutra porta, ao ficar atónito e estarrecido no sofá. Nada. Apenas ouvia dentro de si as vozes de um caos que já estava bem instalado.

 

Pedro amava Joana, uma banalidade, Joana amava Pedro, algo que ele agora só queria ter novamente por certo.

 


Mr Anger às 09:30
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

As estatísticas dizem-me que amanhã vai estar um lindo dia

 

O passado é o reflexo do que viveste hoje. Se vives no passado, vives num paradoxo!

 

 

TIME - "Dark Side of The Moon"

Gilmour / Mason / Waters / Wright

 

Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way.
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way.

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain.
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death.

Every year is getting shorter never seem to find the time.
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say.

Home
Home again
I like to be here
When I can

When I come home
Cold and tired
It's good to warm my bones
Beside the fire

Far away
Across the field
Tolling on the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spell

 


Mr Anger às 23:59
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Terça-feira, 17 de Junho de 2014

Obliterar (é preciso)

 

"Não obstante o discurso coerente pró direitos cívis e favorável aos ventos moderados de uma hipotética sociedade mais justa, a presente incorreu em prática de infracção punível com coima ao fazer-se deslocar em transporte público colectivo sem apresentar na sua posse título de viagem válido para o percurso, aquando da sua solicitação por parte de equipa de fiscalização (vulgo "picas").

 

"Para a próxima tens de obliterar Joana", pensei eu, cadavérico e velhaco, envolvido em tecidos vincados com ares de luxo italiano, reais obras primas da manufactura em série de uma qualquer fábrica do norte do país.

 

Um "conto" em moeda antiga nos dias de hoje? Não dá nem pra matar o vício dos malditos "garrets" fumados em cascatas densas de fumo.

  

- "Atinja-me por favor com um automático do euromilhões e um Ventil!"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DANTES - "78/82"

Tim - Xutos

 

Dantes o tempo corria lento meu
Dantes, matava-se o tempo teu
Fumava-se um cigarro
Matava-se o tempo
Bebia mais um copo
Matava-se o tempo
Segurava paredes
Matava-se o tempo
Poliam-se calçadas
Matava-se o tempo

 

Dantes o tempo corria lento meu
Dantes, matava-se o tempo teu
Mas tudo isto passou
Foi o tempo que me matou!

 

Dantes o tempo corria lento meu
Dantes matava-se o tempo teu
Fazia-se um curso belo
Dentro do tempo
Fazia-se um namoro
Tudo a seu tempo
Arranjava-se casa
Ao mesmo tempo
Fazia-se uma vida
Dentro do tempo

 

Dantes o tempo corria lento meu
Dantes matava-se o tempo
Mas tudo isto passou
Foi o tempo que me matou!


Mr Anger às 00:31
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Segunda-feira, 9 de Junho de 2014

De barba feita:

 

Não sou mendigo

Sou teu grande amigo

Tenho Empréstimo bancário garantido

Tenho curso universitário concluído

Gosto do Ronaldo, Eusébio e Figo

Acredito no senhor e no cupido

Tenho o ultimo modelo de carro conhecido

Tomo notas no tablet porque sou esquecido

Tudo o que tenho na vida é merecido

Digo que sou "realista" e não "convencido"

Sucumbo ao álcool, tabaco e comprimido

O meu iogurte tem bifidus activo

Sou bom pai, filho e marido

Uso GPS para não andar perdido

Uso jeans ao domingo, estilo descontraído

Todo o filme da moda é o meu preferido

Sou tecnologicamente evoluído

Quem vai à frente nas sondagens é o meu partido

 


Mr Anger às 09:20
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Quinta-feira, 8 de Maio de 2014

O perdedor (fecha a porta e apaga as luzes)

 

Apostas ao som da carta batida

Latido de cão doente

Falência renal ao sair dos trintas

Será que vives, ou só tentas?

E a pressão de um filho nos braços, aguentas?

Falácias, sonhos, fugazes euforias

Amor eterno por quem morres ate findar

Cama do amor, do sexo que fazias 

Onde tantas vezes sorrias

Onde acabaste a chorar

Carro novo, carro velho

Ganhar pouco, desemprego

Amar pouco, amor eterno

Esquizofrenicamente vives

Tu, eterno desesperado

Estás velho

Gordo

Cabeça careca

Precocemente enferrujado

Quem tu queres enganar, enganado?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LOSER - "Mellow Gold"

Carl Stephenson Beck

 

In the time of chimpanzees I was a monkey
Butane in my veins so I'm out to cut the junkie
With the plastic eyeballs, spray paint the vegetables
Dog food stalls with the beefcake pantyhose
Kill the headlights and put it in neutral
Stock car flamin' with a loser and the cruise control
Baby's in Reno with the vitamin D

Got a couple of couches sleep on the love seat
Someone keeps sayin' I'm insane to complain
About a shotgun wedding and a stain on my shirt
Don't believe everything that you read
You get a parking violation and a maggot on your sleeve
So shave your face with some mace in the dark
Savin' all your food stamps and burnin' down the trailer park

(Yo cut it)
Soy un perdedor
I'm a loser baby so why don't you kill me?
Soy un perdedor
I'm a loser baby, so why don't you kill me?

Forces of evil in a bozo nightmare
Banned all the music with a phony gas chamber
Cause one's got a weasel and the other's got a flag
One's got on the pole shove the other in a bag
With the rerun shows and the cocaine nose job

The daytime crap with the folksinger slop
He hung himself with a guitar string
Slap the turkey neck and it's hangin' on a pigeon wing
You can't write if you can't relate
Trade the cash for the beef for the body for the hate
And my time is a piece of wax fallin' on a termite
Who's chokin' on the splinters

Soy un perdedor
I'm a loser baby so why don't you kill me?
(Get crazy with the Cheeze Whiz)
Soy un perdedor
I'm a loser baby so why don't you kill me?
(Drive-by body pierce)
(Yo bring it on down)
(I'm a driver I'm a winner things are gonna change I can feel it)
Soy un perdedor
I'm a loser baby so why don't you kill me?
(I can't believe you)
Soy un perdedor
I'm a loser baby so why don't you kill me?
Soy un perdedor
I'm a loser baby so why don't you kill me?
Sprechen Sie Deutche, baby)
Soy un perdedor
I'm a loser baby so why don't you kill me?
(Know what I'm sayin'?)

 


Mr Anger às 09:20
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Sábado, 26 de Abril de 2014

Vitória (?)

 

Palmadas pequenas nas costas

Foguetes,salvas e elogios

Órfãos de actos

Sucumbem aos factos

Reinam sem trono, no vazio

Motivação sem prémio nem glória

Perpendicular ao estalar do chicote

Osso do cão obediente

Que o rói contente

E assim se engana,

E também á fome

Palavra eloquente atirada ao vento

Estéril como a terra queimada

Incentivo sem ponta de alento

Profecia de coisa passada

Moral que dura um momento

Ânimo que cedo esmorece

Motivação que só tolos engana

E que num nada se esquece

Ilusão de vitoria, disforme

Sucesso de oásis prometido

O suor que suei já secou

E tudo acabou vencido

 


Mr Anger às 01:55
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Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Recortes flamejantes no horizonte (ou apenas um titulo pomposo que nada diz)

 

Merda para isto tudo, teia de aranha ao vento, desde o ventre, dores de cabeça latejantes, consumismo desenfreado, Ben-U-Rons de 1grama, um gajo parecido ao Eric Clapton no metro, o meu pai na cara de mil velhotes, mendigos, medo, soluços, vida saciada de bons momentos, espartana, espartilho que agora o comprova, férias marcadas, férias gozadas, filhos nascidos, criados, vidas passadas, tecnologias ultrapassadas, saudosismos do que fomos, do que já não somos, assombros, destroços.

 

Ser só feliz já não chega (nem nunca chegou)

 


Mr Anger às 09:15
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Quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

Pés na estrada

 

Ridiculamente vagueando

Entre o riso e a falsidade

Coisas tuas, só tuas

Imutáveis com a idade

Ilegalidades!

Amor próprio mas sem definição

Estigmas herdados, recalcados

Passados à próxima geração

Absolvição?

A culpa mora em casa alugada

E tu no alpendre, sentada

Eternamente perdida

Deixas o tempo passar

 

Onde vais assim parada?

 


Mr Anger às 11:00
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Quinta-feira, 28 de Março de 2013

Memória de Ferro (O.s.p.e.n.M.r.p.v.é.T.)


"A páginas tantas da vida, se me tivesses dito que o Mundo tinha sido invenção tua, eu tinha acreditado, não por ser lógico, mas sim pelo estado irracional dos momentos, não duvidaria que todas as coisas grandiosas que existem pudessem ter tido em algum momento o toque dessas pequenas mãos talentosas, por tanto acreditar nelas e nas palavras enfeitadas de ornamentos linguísticos, tiques, convicções e portões de castelo escancarados.

 

Tu, só tu, no fim das contas, acreditando que o amor existe e tem escala, quantidades mensuráveis, recordes, então foste tu, foste e sinto que serás sempre tu o meu limite. Há muito que já desapareceram as tuas marcas, os teus vestígios físicos já foram suave ou abruptamente diluídos pelo tempo, já não apanho cabelos teus na roupa de casa ou da rua, o teu perfume há muito que já abandonou a minha pele, as vidas já seguiram outros caminhos, o verão já terminou e as colchas de inverno são puxadas agora para outro destino, mas continuas presente, onde te guardo junto de outras tantas boas memórias, que prova que o amor nunca se apaga mas que mal (di)gerido pode facilmente tornar-se em doença incurável, patologia mental a roçar a loucura se por ela nos deixarmos dominar, deslocando-nos o centro de gravidade para mais perto do chão, arrastando-nos, colocando-nos de joelhos subservientes à dor, atacando-nos permanentemente de forma impiedosa sempre que a impossibilidade de um beijo se torna num doloroso facto consumado na nossa cabeça e que abraços e momentos se figuram como irrepetíveis, sufocantes, meras fotografias mentais cada vez mais esbatidas ou consumidas, em chamas."

Será então esse o lugar digno para um amor maior, um punhal cravado que teima em sair das nossas costas? Um mero resultado doloroso da sua privação? A consequência directa de uma jogada salvadora que ficou por fazer? Uma auto-punição constante por um qualquer esquizofrénico "erro crasso" que nos levou a sucumbir ao xeque-mate?

O tempo diz-nos que de nada servirá essa razão, a filosofia barata ou a irracionalidade de tentar apagar ou autopsiar os factos, a seu tempo, com paciência e sabedoria isso soará apenas a escape de quem tenta a todo o custo não querer sofrer. No fim, se não cedermos à loucura, ao devaneio, veremos que o que nos resta será sempre e inequivocamente apenas amor, mesmo que já extinto, datado, e aparecerá sempre, mesmo que não se queira, na imagem do sorriso do outro, da sua maneira de ser, da sua beleza, inteligência ou sentido de humor, memórias conjuntas e felizes de um passado que  estranhamente, ou felizmente, depois de aceite já não provoca qualquer tipo de dor, angústia ou desespero, apenas uma espontânea e passageira saudade expressa fisicamente num por vezes inoportuno sorriso parvo de quem recorda um momento de felicidade em segredo:

"Nada amor, estava só a lembrar-me de uma coisa engraçada, então e afinal, sempre passamos no supermercado?"

(E são essas memórias que nos fazem bem à vida)


Mr Anger às 12:10
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Terça-feira, 28 de Agosto de 2012

Os contribuintes (ou os bois chamados pelos nomes)

Pouco sentido fará a contestação, a tentativa de mudança e a revolta, porque nos dizem que hoje em dia já não existem ideais. E pouco sentido fará a justiça, porque nos dizem que disso nunca houve. Pouco sentido fará o amor, porque afinal de contas dizem-nos que isso é coisa mal-inventada para explicar o inexplicável, os saltos acrobáticos de hormonas animalescas não visíveis a olho nu e que sobretudo as relações hoje em dia já não funcionam, que são obsoletas, antiquadas, fora de moda. Pouco sentido farão também as palavras, porque nos dizem que afinal de contas já foi tudo dito e/ou feito, e que a novidade – se surgir! - será sempre uma réplica barata do original. Pouco sentido fará sonhar, porque nos dizem que isso é bonito, mas principalmente tolo, infantil e ingénuo. Pouco sentido fará tentar ser feliz, ou mesmo ser feliz, porque nos dizem que já o somos, e que a vida é "mesmo assim". Pouco sentido fará ter filhos, porque nos dizem que o mundo se tornou demasiado perigoso, caro e que eles são um empecilho, estranguladores das nossas preciosas vidas singulares e atarefadas. Pouco sentido fará exijir que as Artes sejam sinónimo de qualidade ou tragam dentro de si alguma mensagem, porque nos dizem que elas são apenas um negócio, e que as pessoas já não gostam de cinema, só de filmes, já não gostam de música, só de batida, já não gostam de teatro, só de novelas, já não gostam de livros, só de vampiros e demais títulos sugestivos, e que por isso qualquer coisa serve para entreter. Não faz sentido tentar fazer algo de útil, ou tentar ser reconhecido apenas pelo nosso talento e trabalho, porque nos dizem que basta apenas aparecemos num reality show insípido, no caça-talentos da moda, na internet a fazer/dizer parvoíces. Não faz sentido querer vestir uma camisa aos quadrados ou uma t-shirt às riscas, porque nos dizem que a moda de hoje é vestir camisa às riscas e t-shirt aos quadrados. Não faz sentido querer ter um bom emprego, querer ter um horário, ou esperar um contracto de trabalho, uma habitação a preço justo, porque nos dizem que isso era no antigamente, no tempo das "vacas gordas". Não faz sentido exigir um serviço nacional de saúde universal, um acesso livre e igualitário ao ensino, um estado social, uma reforma, porque nos dizem que isso é uma utopia, que é a crise e que nós somos os culpados. Não faz sentido sermos honestos, verdadeiros ou querermos mudar o mundo, porque nos dizem que ele sempre foi assim, perverso, onde uns quantos poderosos mandam e subjugam, e uns quantos milhões obedecem, resignados, e vivem no limbo dos desafortunados, a matarem-se entre si, de costas voltadas, desunidos, fraticídas.

Sejamos então esse povo bom, o bom povo que temos de ser, ordeiros, e vamos contentar-nos com isso uma vida inteira, sobrevivendo, dando graças aos tempos modernos onde "uma sardinha felizmente já não tem de ser dívidida por 4 e onde já toda a gente tem televisão", e vamos continuar assim, entretidos pela inveja ao carro em 2ª mão do nosso vizinho a proporcionar a boa vida que outros nos reclamam e exigem pelo suor do nosso esforço, vamos contribuir e calar, acompanhar a novela da 4 e o talk show da 3, e seguir a dieta da revista para mulheres, e a fofoca na revista com nome de mulher, e comentar a mulher boa que vinha nas paginas centrais da revista para homens, na conversa inflamada entre homens por causa de golos com bolas que não entraram e foras-de-jogo mal assinalados comprovados mais tarde em grafismo vectorial por tasqueiros doutorados que aparecem em programas para lá dos 90 minutos de jogo, e continuemos assim, a desfazermo-nos do nosso ouro à mixórdia agiota propangandada pelo sorriso mentiroso de uma qualquer cara conhecida, a pagar o nosso dízimo constitucional sem exijir ou esperar direitos, vivendo no medo, e cantarolando o melhor mega-hit de sempre (dos próximos 2 meses) que as rádios vomitam em playlist, autênticos peões kamikaze no xadrez da vida, com as cabeças inundadas de confusão, vazio, pressão e de bolsos cheios de aplicativos informáticos que nos transformam em automátos de ultimo grito (e obviamente, socialmente bem aceites).

E no fim, porque somos seres humanos e contribuintes, e as aparências da liberdade forçosamente precisam de existir, de tempos a tempos empenhamos o nosso cartão de cidadão com veemência, e de olhos rasgados de esperança assinamos em cruz - entre direitas e esquerdas de forma alternada - o nosso destino, o nosso triste fado.

Para alguns isto continua a fazer todo o sentido... (pudera!)



Mr Anger às 12:30
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Domingo, 7 de Março de 2010

Pensamento à janela... (de cotovelos em pedra fria)*

 

 

 

 

 ...certas questões morrem solteiras (preguiça, amor, ódio, saudade e vingança), porém, se tudo se soubesse não se faziam perguntas, não se procurariam respostas, dentro e fora do que somos. Em certos dias, falta-me o ar, fisicamente, de “prensa no peito” e tudo a que tenho legitimamente direito, mesmo com tanto espaço, sufoco de liberdade, na ânsia de ter de regressar a essa prisão, que afinal apenas reside em mim, cárcere construído de raiz, tijolo por tijolo pelas minhas próprias mãos (culpa), cela de aparência modesta e populada de incertezas, de bibelôs de medo nas prateleiras, lençóis por desmanchar.

 

Suspiro “ais” ao vento e recordo também "suspiros", os bolos de elevadas calorias que tantas vezes comi em miúdo, e que me despertam para o corriqueiro pensamento de como o tempo passa depressa - e de como facilmente se perde tempo - se avançam ponteiros e se arrancam folhas do calendário, 10 anos foram ontem, 20 anos a semana passada, e o que fica guardado ? Pouco e mesmo assim vago. Resumo (e reduz-se) tudo a um pequeno novelo, condensado, (como uma gaveta cheia de quinquilharia, onde se guarda de tudo) de fotografias e filmes de pessoas, objectos, situações e sítios, mas que parecem sempre poucos, que parecem sempre não conseguir fazer jus a uma vida plena de emoções, como se mais se pudesse ter feito, como se mais pudesse ter sido possível de fazer, como se mais nada se pudesse acrescentar (de novo), como se o inverno tivesse vindo para ficar, frio e ameaçador, e eu de edredon por meter na cama mas já a sofrer de antecipação por o não ter posto e que, nesse medo, me perco e acabo por não pôr, sofrendo efectivamente do frio que tinha medo de sofrer.

 

Tenho tudo, sempre consegui tudo, mas abertamente falando, que tenho eu? Meia dúzia de conformismos burgueses, meia dúzia de manias revolucionárias, frases feitas, arrogância, desdém, algo a que chamo amor quando quero ser amado, pouco mais, nunca houve muito mais que isto, certamente...

 

Recordações, sempre elas, mas porquê guardar na memória, acontecimentos tão simples e aleatórios como encontrar um "pé de pato" da Churchill Makapuu  nos seus tons originais, azul de ponta amarela, num passeio estival no principio da década de 90 perto da praia da Almagreira? Não faz sentido, era só um, ainda por cima um gigantesco "L" e nem sequer fiquei com ele... isso ou recordar com exactidão historias de outros, contadas ou vistas, melhor que os próprios. Nada disso é aparentemente útil ou utilizável, mas ironicamente, também sei coisas que nunca ouvi, vi ou conheci, mas sei o que contam, o que são, o que me querem dizer, tal como desconhecidos que sabemos serem fruta podre, confirmados na primeira trinca gulosa, cuspida de seguida, mostrando o verme que a devora.

 

Saudades, eternas saudades, saudades de "tio patinhas" e pipocas com açúcar debaixo de um alpendre de um quintal que já não existe, na companhia de um cão que já morreu, tenho saudades de pescarias hoje em dia impossíveis, de caminhadas pela praia cada vez mais improváveis...


(tive isso tudo um dia na palma da mão aberta, mas agora de mão fechada, tenho medo de a voltar a abrir, e não encontrar... nada)

 

 

* Sara também pensa assim, mas só nos dias em que a chuva vem e bate na janela virada para o rio (Douro)...
 

 


Mr Anger às 14:00
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Just a little pin prick (palavras sem fotografia)

 

Pensava eu que o mundo acabaria – mais tarde ou mais cedo – por ceder simpatias, coisas dispersas e avulsas (raras), de cheiro a mofo de não usar, descontinuadas, mas felizes. Não passou tudo de mera expectativa, da pior ilusão, enganei-me no espelho (olha para ti, sou eu) um acumular de contínuos “Dons Sebastiões” em espera que a meteorologia lhes desse uma manhã de nevoeiro cerrado e esperançoso, que tardou sempre em chegar, e onde após debelar a negação, se descobre que mesmo o mais cerrado de todos não encobre nada, é fumo de um fogo comum, apenas um ligeiro camuflado, pequena brisa suja, manto de tecido leve, que distorce mas não esconde ou trás nada que não estejamos à espera, eterno embrulho de presente que pelo toque sabemos sempre serem meias de desporto contrafeitas, e que, por suposição, experiência, mas nunca sorte, quase que adivinhamos a cor branca, eterna frustração de quem sabe sempre o que lhe espera, hoje, amanhã e depois, Tigre amansado que vive num habitat controlado, genérico, pouco expressivo, desgastante, forçado, definido, pois tudo é-lhe "explicitamente numas/aparentemente noutras" dado, nada obtido por esforço real ou vontade própria, tudo em troca de uma falácia, de uma ilusão, de um gesto maquinal de fera, uns quantos abrires de boca de tédio (bocejos) e revolta (rosnares)…

 

 

O Tigre não faz ron ron
O Tigre só quer caçar
O Tigre nunca foi bom
É fera que quer matar

 

 

Não quero mais comer dessa carne, oferecida em mão, talhada de seu nervo, de ossos escolhidos a dedo, de níveis medidos, analisados, não quero beber mais água límpida, filtrada, aditivada, quero o que calha, o que me calha, o que mereço, parem, por favor parem!! Libertem as amarras invisíveis, mordaças mentais, eu estou a rosnar, enfurecido, não é felicidade, não quero os vossos sorrisos, não me tirem fotos, estas árvores não são daqui, foram aqui plantadas, estas pedras fazem parte dos sonhos de uma Arquitecta, de um Biólogo, de alguém, não foi a natureza que as escolheu… eu não sou daqui… eu não pertenço aqui… eu não sou livre, não sou o que estão a ver… metam uma ponte no fosso e eu juro que passo, eu juro que trinco, mordo e mato… julgam-me mal… não simpatizo com as vossas simpatias… preservar dizem vocês… amor dizem sentir… amor por vocês sim, mas não me façam de joguete, marioneta do vosso egoísmo, demanda de em tudo mandar, de tudo subjugar, estou cansado dos vossos gostos, regras e vontades… quero morder o braço frágil e quebradiço de uma criança, não me conhecem, quero matar 2 ou 3 antes de ser sedado, quero sentir o sangue quente de uma jugular a escorrer-me pela garganta, quero lamber as minhas patas pastosas de sangue coagulado, quero ser odiado, quero que alguém se arrependa de me ter pensado bonito e dócil, não sou peluche, não sou producto de prateleira de hipermercado nem personagem ternurenta de filme domingueiro de animação, quero ser abatido se for preciso, morrer a tentar viver …

 

Deixem-me mostrar o que sou, o que realmente sou, pois até agora não sabem ou conhecem nada…nada!!!!

 

 

O Tigre não está mansinho
O Tigre não está quebrado
O Tigre não quer um destino
De outros para ele traçado


 

E uma besta fechou os olhos, seguiu a viagem do livre arbítrio, nesse caminho pintado a negro, breves segundos espaçados de um flash, invadidos depois de cor, das coisas que queria e quer, de lugares onde nunca esteve mas sonha, de coração acelerado que pára, mas que numa eternidade indefinida e secreta…ecoa…

 


Mr Anger às 16:45
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Retroactividades (concisas)

 

 

 

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blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá

blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá

blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá


Amo-te!!

 

(Diga hoje, sem rodeios, o que devia ter dito ontem... senão o que vai ter para calar amanhã ?)

 

 

 

COMMUNICATION BREAKDOWN - "I (Led Zeppelin)"

Led Zeppelin - Bonham/Jones/Page
 

Hey girl stop what you're doin'!
Hey girl you'll drive me to ruin.
I don't know what it is that I like about you
But I like it a lot.
Won't let me hold you
Let me feel your lovin' charms.

Communication Breakdown
It's always the same
I'm having a nervous breakdown
Drive me insane!

Hey girl I got something I think you ought to know.
Hey babe I wanna tell you that I love you so.
I wanna hold you in my arms, yeah!
I'm never gonna let you go,
'Cause I like your charms.
 

Communication Breakdown
It's always the same
I'm having a nervous breakdown
Drive me insane!
 

I want you to love me all night...
 

Communication Breakdown
It's always the same
I'm having a nervous breakdown
Drive me insane!
 

I want you to love me all night
I want you to love me
I want you to love...yeah! I want you to love!

  


Mr Anger às 10:00
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Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Ainda bem que voltaste


(Já me fazia falta esse teu sorriso
Custava vivê-lo só ao recordar
Fazia-me falta teu porto de abrigo
Os corpos fundidos num só abraçar)


Já vinhas!
Vieste?
Fazias-me falta
Não sei se soubeste

Não sei se me ouviste
Nas noites baixinho
Sentado na praia
Esperando sozinho


Perdi-te!
Voltaste?!
Será que vieste
Ou nem o tentaste?
Talvez fosse cedo
E não tenhas esperado
Ou chegaste tarde
E eu já noutro lado


Fugiste?
Esqueces-te?
Senti-te por perto
Mas tu não cedeste
Sem olhos brilhantes
Nem peso dos beijos
Sem risos nem choros
Matando os desejos


Chegaste!
Foi duro?!
Esquecido o passado
Rasgando o futuro
Contigo a meu lado
Num beijo só nosso
O toque dos lábios
Molhados,
Sedosos,
Sedentos de nós,
Bocas ofegantes
Que se querem juntas
Como nunca antes
Teu corpo, meu corpo
No abraço de sempre
Amor, meu amor...
Só importa o presente

 

E (o) amor... mudaste ?!

Que importa...

Ainda bem que voltaste

 

 

  

 

  

WISH YOU WERE HERE - "Wish You Were Here"

Pink Floyd - Gilmour/ Waters

 

So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skies from pain
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

Did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
Did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here

 


Mr Anger às 18:25
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Terça-feira, 10 de Março de 2009

Um segundo... num breve segundo... fomos únicos... fomos unos...

 

E de repente... embora de forma esperada, acaba-se o sonho, e a cabeça dói de tanto pensar como foi (tão) bom, como foi demasiado bom, como foi além das marcas, como vivemos sem amarras, nem que por um segundo, num breve segundo em que estivemos acima de tudo, de todos, das regras, das lógicas, em que fomos maiores que a própria vida, fomos liberdade, fomos tempo, fomos o dia pelo dia.

 

Fizemos nesse tempo o que nos deu na real gana - e que ganas nós tínhamos - se vivermos para contar aos netos - se os viermos a ter - não iremos contar (jura-me!)… pois é nosso, ninguém merece ouvir, nunca ninguém irá perceber (e no fim até faz mal, porque tanta felicidade, tanta liberdade, deprime quem nunca a teve)... talvez quando estivermos muito esclerosados o façamos por descuido próprio da doença, mas nunca de forma deliberada, fomos além das marcas... mesmo que só por um segundo... um breve segundo diluído neste marasmo em que a vida se parece tornar, em que nos sufoca, rebaixa... vida onde outrora saltámos, voámos além dos limites...

 

Mas agora, inevitavelmente, estamos a voltar com os pés ao chão, e sentimos o peso das coisas, e talvez nunca mais os voltemos a tirar de lá... do chão... cravados pela inércia... pelo peso da própria vida... é possível que para sempre... mas ao menos voámos, nem que por um segundo... o breve segundo mais feliz das nossas vidas… obrigado!

 


Mr Anger às 22:15
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