Domingo, 7 de Março de 2010

Pensamento à janela... (de cotovelos em pedra fria)*

 

 

 

 

 ...certas questões morrem solteiras (preguiça, amor, ódio, saudade e vingança), porém, se tudo se soubesse não se faziam perguntas, não se procurariam respostas, dentro e fora do que somos. Em certos dias, falta-me o ar, fisicamente, de “prensa no peito” e tudo a que tenho legitimamente direito, mesmo com tanto espaço, sufoco de liberdade, na ânsia de ter de regressar a essa prisão, que afinal apenas reside em mim, cárcere construído de raiz, tijolo por tijolo pelas minhas próprias mãos (culpa), cela de aparência modesta e populada de incertezas, de bibelôs de medo nas prateleiras, lençóis por desmanchar.

 

Suspiro “ais” ao vento e recordo também "suspiros", os bolos de elevadas calorias que tantas vezes comi em miúdo, e que me despertam para o corriqueiro pensamento de como o tempo passa depressa - e de como facilmente se perde tempo - se avançam ponteiros e se arrancam folhas do calendário, 10 anos foram ontem, 20 anos a semana passada, e o que fica guardado ? Pouco e mesmo assim vago. Resumo (e reduz-se) tudo a um pequeno novelo, condensado, (como uma gaveta cheia de quinquilharia, onde se guarda de tudo) de fotografias e filmes de pessoas, objectos, situações e sítios, mas que parecem sempre poucos, que parecem sempre não conseguir fazer jus a uma vida plena de emoções, como se mais se pudesse ter feito, como se mais pudesse ter sido possível de fazer, como se mais nada se pudesse acrescentar (de novo), como se o inverno tivesse vindo para ficar, frio e ameaçador, e eu de edredon por meter na cama mas já a sofrer de antecipação por o não ter posto e que, nesse medo, me perco e acabo por não pôr, sofrendo efectivamente do frio que tinha medo de sofrer.

 

Tenho tudo, sempre consegui tudo, mas abertamente falando, que tenho eu? Meia dúzia de conformismos burgueses, meia dúzia de manias revolucionárias, frases feitas, arrogância, desdém, algo a que chamo amor quando quero ser amado, pouco mais, nunca houve muito mais que isto, certamente...

 

Recordações, sempre elas, mas porquê guardar na memória, acontecimentos tão simples e aleatórios como encontrar um "pé de pato" da Churchill Makapuu  nos seus tons originais, azul de ponta amarela, num passeio estival no principio da década de 90 perto da praia da Almagreira? Não faz sentido, era só um, ainda por cima um gigantesco "L" e nem sequer fiquei com ele... isso ou recordar com exactidão historias de outros, contadas ou vistas, melhor que os próprios. Nada disso é aparentemente útil ou utilizável, mas ironicamente, também sei coisas que nunca ouvi, vi ou conheci, mas sei o que contam, o que são, o que me querem dizer, tal como desconhecidos que sabemos serem fruta podre, confirmados na primeira trinca gulosa, cuspida de seguida, mostrando o verme que a devora.

 

Saudades, eternas saudades, saudades de "tio patinhas" e pipocas com açúcar debaixo de um alpendre de um quintal que já não existe, na companhia de um cão que já morreu, tenho saudades de pescarias hoje em dia impossíveis, de caminhadas pela praia cada vez mais improváveis...


(tive isso tudo um dia na palma da mão aberta, mas agora de mão fechada, tenho medo de a voltar a abrir, e não encontrar... nada)

 

 

* Sara também pensa assim, mas só nos dias em que a chuva vem e bate na janela virada para o rio (Douro)...
 

 


Mr Anger às 14:00
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4 comentários:
De A Esquisita a 15 de Março de 2010 às 10:26
"10 anos foram ontem, 20 anos a semana passada" amanha tera 5, e para a semana renascera? Escreveu isto enquanto via o Benjamin Button pela milesima vez?:D O relogio não anda para trás mr. Anger.O que é pena... porque assim poderia voltar a infancia para buscar aquela barbatana unica que achou e deixou... resgatar os "tio patinhas" que tanto o faziam feliz e suspirar enquanto lhe saltavam migalhas de suspiro disparadas pela boca fora :D O relogio não anda para tras, mas nos podemos andar.Basta resgatar os habitos, as pessoas e as coisas que ao longo dos anos fomos deixando esquecido no sotão da memoria.


De Mr Anger a 15 de Março de 2010 às 13:49

Cara Random (Aleatória),

Confesso que não gostei que me tivesse feito ver esse filme tantas vezes, a mim bastou-me uma e acredite que foi (mais do que) suficiente, deseje-me (glup) algo melhor, você consegue... :)

A sua questão e ponto de vista é extremamente pertinente... mas apenas na sua cabeça... o que não quer dizer que não faça sentido, naquelas perguntas de "vê a menina nova ou velha/um coelho ou um pato", muita gente vê certamente um homem das obras e um texugo, outros até, acredito, não vejam nada, é tudo uma questão de perspectiva, simpatizei com a sua :D

A conversa vai boa, mas terei de ir almoçar Feijoada (com arroz branco)...


Mr Anger (se tem a boca cheia, não fale)


De A Esquisita a 15 de Março de 2010 às 16:17
Concordo plenamente, uma dose daquele filme e suficiente.Fez bem em ir almoçar o que eu menos queria era ouvir os seus ruidos estomacais a rosnar de fome...para isso bastam os meus.(vergonha)


De Heidi a 18 de Março de 2010 às 19:17
Se não tivesse essas recordações era muito mal sinal! Só iria significar que tinha ficado fechado dentro de uma sala escura, enrolado dentro de si. Não tenha medo de abrir a mão... tudo vai continuar no seu centro. Nada nos foge. Pelo contrário... :)


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